Posts de Maio, 2008

Uma nova casa para o cinema brasileiro

Maio 26, 2008

Texto: Cyntia Calhado

Começamos assistindo os filmes brasileiros do período que vamos estudar, 1995 a 2007 (NE: o projeto está sendo desenvolvido por Cyntia Calhado e Camila Fink) . Você pode imaginar como foram nossos finais de semana para dar conta da enorme quantidade de longas e selecionar as pepitas de ouro que vamos analisar nos textos.

Destaco alguns títulos para quem tiver interesse: Santiago (João Moreira Salles), Jogo de Cena do mestre Eduardo Coutinho, Lavoura Arcaica, Madame Satã, Peões e os famigerados Cidade de Deus, Central do Brasil e Abril Despedaçado. Foi muito prazeroso entrar em contato com as diferentes propostas estéticas e temáticas do nosso cinema. 

Enquanto isso, lemos livros e críticas da Folha, Estado e sites de cinema para nos munirmos de argumentos. O layout do site começou a ser feito e o primeiro artigo – que faz uma retrospectiva sobre o cinema brasileiro – está saindo do forno. Depois, entrevistamos dois críticos, o Inácio Araújo* e o Sérgio Rizzo**, ambos da Folha de S. Paulo. Foi uma experiência muito enriquecedora ouvir o que esses dois estudiosos do cinema têm a dizer sobre o nosso objeto de estudo. Abriu nossos olhos pra muitas coisas. Algo que me marcou neste começo de TCC foi perceber que estudar o cinema brasileiro é estudar o Brasil e encarar nossa dura realidade social e política.

E termino esse post com um trecho emblemático e inspirador de Paulo Emílio Sales Gomes retirado do livro, também conhecido como uma Bíblia do cinema nacional, Cinema: Trajetória no subdesenvolvimento.

“Não somos europeus nem americanos do norte, mas destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro. O filme brasileiro participa do mecanismo e o altera através de nossa incompetência criativa em copiar.

Boa sorte pra nós

*Inacio Araujo é crítico de cinema da Folha de S. Paulo; montador, roteirista, assistente de direção de filmes entre 1970 e 1982; autor do episódio Aula de Sanfona, no filme As Safadas (1982); autor do romance Casa de Meninas (Prêmio Revelação de Autor Associação Paulista de Críticos de Arte, 1987 – 2a. edição, Imprensa Oficial, SP); autor de Hitchcock, o Mestre do Medo (ensaio, 1982, esg.), Cinema – O Mundo em Movimento (paradidático, 1992, esg.), Uma Chance na Vida (romance juvenil, 1989)

**Sérgio Rizzo é jornalista e crítico de cinema (Folha de S. Paulo). Mestre em Artes e doutorando em Ciências da Comunicação pela USP, é professor no curso de jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e na pós-graduação em crítica cinematográfica da FAAP.

Vagas de estágio em jornalismo e novas dicas

Maio 14, 2008

Saiba que tipo de estagiário o Consulado da Suiça procura, a Roland do Brasil (instrumentos musicais) também está atrás de um.  Leia também sobre o lançamento do livro “Políticas Públicas Sociais e os Desafios para o Jornalismo”. Tudo isso na página Vagas, cursos e afins do blog.

Abraços.

SHUT UP N’ LISTEN (trad.: CALA ESSA MATRACA IMUNDA E ESCUTA !)*

Maio 13, 2008

Texto: Marcelo Lourenção

Eu estou tentando fazer um texto decente sobre o que se passou nos quatro dias e meio em que estive capturando material para o meu tcc, mas como não tenho previsão de quando (ou certeza de que) vou terminá-lo, o que eu posso oferecer agora é um resumo simplista misturado à minha proposta; uma ajuda ao esforço do Alê em manter esse blog atualizado. Para relatar toda essa experiência eu precisaria, além de mais alguns mil toques, mencionar aulas sobre o Bhagavad-gita, circuit-bending (NE: É a arte de modificar eletrônicos, normalmente os usados em brinquedos, para criar novos sons e instrumentos musicais), gojira, mate e chás chineses.

Bom, qual é o tema? Eu ainda não consigo responder isso de uma maneira muito objetiva. A princípio a idéia era pensar a relação entre arte/cultura e mercado. Esse é um trecho da proposta que entreguei pro Levi:
“Propor um novo olhar sobre o que exigimos de uma manifestação para lhe atribuir o status de arte/cultura; o grau de consciência que temos sobre a importância da autonomia de criação e se valorizamos manifestações artísticas como processos indissociáveis de quem as produz, e de suas experiências de mundo, ou somente como produtos finais esteticamente agradáveis”.

Entretanto, a idéia atual, pelo menos enquanto escrevo isso, é tratar cultura/arte como uma experiência de quem a produz, um processo de expressão individual que não deveria ter o compromisso de agradar alguém. Uma proposta escrita hoje iria por aqui: “A cultura pode ser vista como conjunto da necessidade de intercâmbio de expressões entre os homens. Este intercâmbio, no entanto, é canalizado pelas regras do imaginário coletivo, que tende a anular a premissa inicial da cultura como necessidade natural de expressão, fazendo com que produções artísticas surjam buscando reconhecimento social ou status cultural”.

Comecei a filmar, entre 18 e 22 de abril, com o duo colorir, composto por Peter Gossweiler e Pedro Paiva. Algo entre a improvisação (variação sobre uma estrutura/tempo) e a indeterminação (o uso deliberado do acaso e da indistinção entre som estruturado e ruídos), batizado por eles como música livre. Desde outubro, Pedro e Peter não moram mais na mesma cidade. Pedro voltou de Florianópolis para sua cidade natal, Porto Alegre. Mas o que seria um problema tornou-se algo interessante pela solução que eles me deram: filmar um show solo de cada e transformar em um só, do colorir. Afinal, tocando no mesmo palco ou não; escutando o outro ou não; sabendo o que o outro tocou/tocaria ou não; eles estariam improvisando e respeitando o espaço do outro da mesma maneira, em qualquer um dos casos.

Pedro tocou violão e Peter um pedal duplo ligado a um laptop. Capturei imagens do Pedro tocando no Instituto Goethe e o entrevistei na escada de uma casa vazia. Já o Peter, tocando no espaço cultural sol da terra e a entrevista, a pedido dele, foi feita em quatro lugares diferentes da cidade (caçando bebedouros, pois a bateria da câmera tinha acabado). Os shows foram organizados pelos próprios Pedro e Peter, com intuito de auxiliar a turnê do músico austríaco Bernhard Gal, pois qualquer vertente de música não comercial estrutura-se por meio de intercâmbios promovidos entre os próprios músicos. Graças à descendência do Gal, o esforço do Pedro e o apoio da embaixada austríaca em Brasília, o Goethe de Porto Alegre abrigou, não só as apresentações, em seu anfiteatro, como o músico e a sua namorada em um dos quartos para visitantes; e eu, usufruindo de algum prestígio por ser um quase jornalista fazendo um quase documentário, em outro.

Em Florianópolis, Peter, além de me receber às 6 da manhã de domingo, foi responsável pela organização de mais uma edição do festival música livre, no espaço cultural sol da terra, um lugar simpático de iniciativa privada que comporta shows pequenos na mesma sala em que funciona um cinema. Nos dois dias se apresentaram três músicos. Primeiro eles tocaram sozinhos e depois todos juntos. A reação das pessoas também seguiu um padrão. Algumas elogiaram os músicos e descreveram as sensações que a música lhes proporcionou, outras saíram da sala antes do final, conversaram e contestaram a qualidade do que estavam vendo/ouvindo.

Sem entrar no espírito “SHUT UP N’ LISTEN” você vai esperar até se irritar, por coisas que não vão acontecer. Era preciso entender o recado dado pelas luzes quase totalmente apagadas: há muito pouco para se ver e muito para se escutar.

* tradução não literal, mas coerente. By Overmundo .

Os nerds contra atacam

Maio 5, 2008

A proposta de desenvolver uma publicação, em formato de revista, para o público chamado de nerd. Por alto, essa é a idéia de Carlos Cyrino, colaborador do site Delfos,  para seu tcc.  A publicação, ainda sem nome, deve ter pelo menos dois números editados até o próximo semestre. O texto abaixo segue a linha de seus textos para o Delfos, lembrando que o universo nerd é mais amplo que o cinema e a revista pretende explorar isso.  Boa leitura.

David Rice deveria ter saltado até a Lua

Título: Jumper
País: EUA
Ano: 2008
Gênero: Ação/Ficção Científica
Distribuidora: Fox
Duração: 88 minutos
Diretor: Doug Liman
Elenco: Hayden Christensen, Samuel L. Jackson, Diane Lane, Jamie Bell, Rachel Bilson, Michael Rooker.

Imagine um dia descobrir que você pode se teletransportar para onde quiser. Não apenas você nunca mais precisaria pagar ônibus e metrô (sem contar as horas economizadas no trânsito) como poderia conhecer o mundo inteiro num piscar de olhos. Essa é a maravilhosa premissa de Jumper, filme que me chamou a atenção desde que eu li sua sinopse e só aumentou minha ansiedade por assisti-lo após ver o trailer, que prometia se tratar de uma das melhores películas do ano.

Eu consigo pensar em algumas possibilidades ótimas para essa idéia. Só para dar um exemplo: que tal roubar uma roupa espacial da NASA e visitar todos os planetas do sistema solar?  Eu realmente acreditava que este filme poderia render excelentes argumentos e discussões, mas infelizmente os roteiristas não têm a mesma imaginação e se contentaram em escrever um filme de ação raso e bobinho, jogando no lixo um mundo de possibilidades.

 Temos a história de David Rice (Hayden Christensen), que, após passar por um evento traumático na adolescência, descobre que possui o dom de se teleportar, ou saltar, como é chamado no filme (daí seu título) para onde lhe der na telha.  Como qualquer pessoa sensata e sem falsos moralismos faria, a primeira ação de David após tomar consciência de sua nova habilidade é ir direto para dentro do cofre de um banco fazer um saque. A partir daí ele curte a vida adoidado. Toma café da manhã na cabeça da Esfinge, vai surfar em Fiji e paquera mulheres num pub em Londres, tudo isso antes do almoço. Em suma, usa seu poder em proveito próprio, o que poderia render uma boa discussão sobre egoísmo, mas fica apenas no campo superficial.
 Mas eis que um belo dia, ao voltar para casa, depara-se com Roland (Samuel L. Jackson) dentro de seu apartamento. O sujeito sabe quem ele é, o que é capaz de fazer e possui armamento de tecnologia avançada capaz de anular sua capacidade de saltar. Roland faz parte de um grupo chamado Paladinos, uma organização que caça e mata os Jumpers (isso mesmo, David não é o único) com o furado pretexto de que apenas Deus deveria ter esse tipo de poder.

E é justamente aí que o mote cheio de potencial do filme descamba para apenas mais uma obra hollywoodiana boba e com o roteiro mais furado que um queijo suíço. Pense comigo: não seria melhor esses Paladinos caçarem criminosos realmente perigosos como assassinos e estupradores do que contraventores como os Jumpers, que só querem se divertir? Essa desculpa de “o que vocês fazem não é natural e, portanto devem morrer” é forçada demais.  E outra: você encontra um cara dentro da sua casa, ele sabe quem você é e tenta te matar, mas você consegue escapar. O que você faria? Eu fugiria para o mais longe possível. Mas David prefere voltar à sua cidade natal e reencontrar seu amor de colégio, colocando-a em perigo. Isso faz algum sentido?

 Aliás, essa parte romântica do filme é bem chata e só está lá para satisfazer todos os clichês de um filme do gênero. Pelo menos as seqüências de ação são bem orquestradas e garantem a diversão, aliadas aos efeitos especiais dos saltos, simples, mas eficientes. Como destaque, cito a seqüência a bordo de um carro no trânsito de Tóquio.  Também ajuda a salvar o filme a presença de Jamie Bell como Griffin, um Jumper experiente que inverteu os papéis e virou um caçador de Paladinos. Ele rouba todas as cenas em que aparece e talvez, se tivesse sido escalado como o protagonista, o filme fosse mais interessante.  Há também o reencontro de Hayden Christensen e Samuel L. Jackson, que pode ser visto como um novo embate entre Anakin Skywalker e Mace Windu (seus respectivos personagens em Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith), mas isso não é suficiente para levar ninguém aos cinemas.

 O diretor Doug Liman, que havia feito os bons A Identidade Bourne e Sr. e Sra. Smith, desta vez errou a mão ao privilegiar aspectos mundanos como romance e ação adrenalinesca ao invés de partir para um víeis mais filosófico que uma pessoa sem limite de espaço e tempo poderia suscitar. No entanto, como o filme dá pistas de uma continuação, só posso esperar para que essas questões sejam eventualmente abordadas nela.
 No mais, Jumper é apenas uma diversão satisfatória, mas facilmente esquecível. Vale o preço do ingresso, mas não deixa de ser decepcionante notar que, num cinema (o hollywoodiano) cada vez mais dominado pela falta de criatividade, quando finalmente surge uma idéia promissora, ela é desperdiçada com a mesma velocidade que um salto de David Rice.

Por Carlos Cyrino